A minha igreja entrou no reteté
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Louvação
“Se és louvado, estás em perigo; se não és, é teu irmão que está.”
(Santo Agostinho, De Sermone Domini in monte, Livro II, cap. I)
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Pra que serve a liberdade?
“Se o caminho da verdade permanecer oculto, de nada vale a liberdade, a não ser para pecar.”
(Santo Agostinho, “O Espírito e a Letra”, cap. III)
Maledicência

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“É ridículo se alguém pensa que Deus abomina a doença da maledicência na língua e não desaprova a doença da malignidade na mente.”
(João Calvino, “As Institutas”, vol. 2, cap. VIII)
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A oração de Thomas Merton
Não tenho a menor idéia de para onde estou indo,
Não enxergo o caminho à minha frente,
Não sei ao certo onde irá dar esse caminho.Também não conheço verdadeiramente a mim mesmo,
E o fato de que penso que estou seguindo a Tua vontade
Não significa que realmente esteja seguindo a Tua vontade.
Realmente Te agrada.
E espero ter esse desejo em tudo o que fizer,
Espero nunca me afastar desse desejo.
Tu me guiarás pelo caminho correto
Embora eu possa nem saber que o estou trilhando.
Embora eu pareça estar perdido
E caminhando na sombra da morte.
E não temerei, porque Tu estás sempre comigo
E nunca deixarás que eu enfrente os perigos sozinho.
Vidas ásperas
Eclesiastes 3:16-4:3
A aspereza da vida
Não temos aqui propriamente uma mudança de assunto, pois a idéia de tempos estabelecidos e do seu poder sobre nós continua presente no versículo 17. Mas o problema da injustiça é demasiadamente comovente para ser tratado como simples ilustração desse tema. Transforma-se num assunto à parte por um breve espaço de tempo no capítulo 4, e vai retornar de vez em quando em passagens posteriores.
Primeiramente, entretanto, podemos vê-lo na apresentação das inversões e súbitas mudanças de direção da vida, que são predominantes no capítulo 3. Pois se há uma coisa que clama por uma reviravolta é a injustiça. Eis aí finalmente alguma coisa obviamente proveitosa nas voltas e reviravoltas de nossos negócios. O fato de que tudo na terra obedece à periodicidade promete um fim ao longo inverno do mal e do desgoverno. Reforça a convicção puramente moral de que Deus julgará (v. 17), sabendo que para este acontecimento, como para tudo o mais, ele já designou uma época adequada.
Isso é muito bom, achamos nós; mas por que a demora? Por que agora ainda não é o tempo adequado para a justiça universal? A essa pergunta não enunciada, os versículos 18 e seguintes dão uma resposta tipicamente dura, considerando que a nossa primeira necessidade não é ensinar a Deus o que ele deve fazer, mas aprender a verdade acerca de nós mesmos, uma lição que nós somos muitos lentos em aceitar. (Mesmo o século vinte nos encontra ainda muito inclinados a negar a nossa maldade inata.) Portanto, quando o versículo 18 diz: para que Deus os prove (ou melhor os desmascare)[1] e eles vejam que são em si mesmos como os animais, ficamos profundamente chocados. É verdade que o “como os animais” da Almeida Revista e Atualizada é questionável[2]. Mas temos de admitir que totalmente à parte de nossas tendências para a crueldade e para a sordidez, que nos colocam em uma categoria ainda mais inferior, há pelo menos dois fatos que dão respaldo à acusação: a inclinação para a ganância e para a esperteza em nossos negócios (que é o assunto em discussão, versículo 16), e a mortalidade que os homens partilham com todas as criaturas da terra. O primeiro destes tristes fatos reaparece no próximo capítulo; o segundo ocupa o restante deste e recebe influências de outras partes do Antigo Testamento. O versículo 20, que nos apresenta o homem em sua caminhada do pó para o pó, como em Gênesis 3:19, confronta-nos com a Queda e com a ironia de que morremos como os animais porque nos imaginávamos deuses.
Mas existe em nós alguma coisa que sobreviva à morte? Do seu ponto de vista privilegiado, Eclesiastes só pode responder: Quem sabe?[3] O fôlego de vida, ou o espírito[4], nestes versículos é a vida que Deus dá tanto aos animais quanto aos homens, e cuja retirada resulta na morte, como diz o Salmo 104:29ss. Está claro que pelo menos isso temos em comum com os animais; mas se “espírito” implica em alguma coisa eterna para nós, ninguém pode chegar a uma conclusão apenas pela observação do texto aqui[5].
Mas o eco do Salmo 49, aquele que faz a mesma comparação entre os homens e os animais, nos faz lembrar que há uma resposta. O homem de fé pode dizer: “Mas Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois ele me tomará para si” (Sl 49:15). É o homem “em sua ostentação”, o homem sem entendimento, o que é “como os animais, que perecem”[6]; e este é o homem com o qual Eclesiastes se preocupa.
Para tal pessoa o versículo 22 oferece o melhor que pode dar: a satisfação temporária de executar bem o seu trabalho. Não é coisa de se desprezar. A possibilidade é um legado de um mundo bem criado, como esclarece o versículo 13. Tudo o que estará faltando (mas é virtualmente tudo) será a satisfação de aceitar esse trabalho como um dom do Criador (veja acima, versículo 13), e oferecê-lo a ele.
Com o capítulo 4:1-3 retornamos às opressões que se fazem debaixo do sol, assunto abordado em 3:16. A passagem é tão curta quanto dolorosa, pois se não há um meio de acabar com estas coisas (como na verdade não existe, no tempo presente), pouco se pode acrescentar aos amargos fatos do versículo 1 além do lamento dos versículos 2 e 3. Talvez achemos que esta atitude seja derrotista, pois sempre há muita coisa que pode ser feita pelos que sofrem, quando queremos fazê-lo. Mas esta objeção dificilmente seria honesta. Coelet[7] está observando a cena como um todo, e ele pode muito bem retrucar que após cada intervenção concebível ainda restariam inumeráveis bolsões de opressão nas “moradas da crueldade”[8] – o suficiente para fazer os anjos chorarem, se não os homens. Ele poderia acrescentar que não há coincidência alguma no fato de o poder se encontrar do lado do opressor, uma vez que é poder que mais rapidamente desenvolve o hábito da opressão. Paradoxalmente, ele limita a possibilidade de uma reforma, porque quanto mais controle o reformador tiver, maior a tendência para a tirania.
Assim um outro aspecto da vida terrena foi apresentado; e nada há mais triste em todo o livro do que a melancólica alusão, nos versículos 2 e 3, aos mortos e aos que ainda não nasceram, que são poupados da visão de tanta angústia. Isto é apropriado, pois embora de um modo geral Eclesiastes esteja preocupado com a frustração, aqui ele se ocupa com o reino do mal, e com o mal em sua chocante forma de crueldade. Se a melancolia de Coelet nos choca excessivamente neste ponto, talvez devamos nos perguntar se a nossa visão mais otimista brota da esperança e não da complacência. Se nós, os cristãos, vemos mais além do que ele se permitiu, não há motivos para nos pouparmos das realidades do presente.
(Derek Kidner, deão da Tyndale House, Cambridge, em “A Mensagem de Eclesiastes”, série “A Bíblia Fala Hoje”, Editora ABU, 2ª ed., 1998, págs. 29/32)
[1] A palavra para “provar” já parece ter o seu sentido posterior de “trazer à luz” (conf. McNeile, pág. 64).
[2] O texto não precisa dizer nada mais além disso, que os homens agem como os animais, ou que são animais em certos sentidos indicados pelo contexto. Este versículo, um tanto difícil, diz: “… para que Deus os prove (ou os exponha, veja nota anterior), e eles vejam que são em si mesmos como os animais”. No Sl 14:2 quem vê a situação dos homens é Deus; aqui, ao contrário, o sujeito são as pessoas envolvidas (“e eles vejam”); mas uma mudança de vogal daria “mostrar” (como diz a Bíblia de Jerusalém e a maioria das traduções modernas, seguindo a LXX et al.). As palavras “em si mesmos” foram interpretadas como erro de copista, uma vez que “animais” e “eles” são palavras semelhantes; ou significando “entre si” (“denunciá-los e mostrar que são animais uns para os outros”, BJ); ou “de sua parte”; ou “em si e de si mesmos” (Delitzch). Eu me inclino a aceitar Delitzch ou a BJ.
[3] Há versões, como a ARA, que traduzem o versículo 21 como sendo uma afirmação implícita: “Quem sabe que o fôlego de vida (ou o espírito) dos filhos dos homens se dirige para cima”, etc. A vogal hebraica no começo de “se dirige” favorece esta versão (embora não de maneira exclusiva: veja o hebraico de, por exemplo, Nm 16:22; Lv 10:19), mas o hi que vem a seguir comprova o contrário. O ponto de vista geralmente defendido por Coelet, e o presente contexto em particular, apóiam a tradução da Edição Revisada (de acordo com os melhores textos) da Imprensa Bíblica Brasileira.
[4] Ambas são tradução de ruah aqui (19, 21). Em Gn 2:7 foi usada uma palavra diferente para o hálito da vida que foi soprado nas narinas do homem no ato da criação.
[5] À primeira vista, Ec 12:7 responde a esta pergunta. Mas não é preciso dizer mais do que foi dito em Sl 104:29ss, que Deus dá e retira o hálito da vida de suas criaturas quando quer.
[6] Veja Sl 49:12, 14, 15 e 20. A Edição Revisada e a Bíblia na Linguagem de Hoje roubam do salmo o seu clímax, fazendo o versículo 20 simplesmente repetir o v. 12, quando no texto hebraico (e também na ARA) há a frase: “O homem… sem entendimento”.
[7] Apenas o título Coelet (“O Pregador”) é usado a partir de Ec 1:2 (7:27; 12:8-10), e a postura do escritor se tornará a de um simples observador, não a de um governante. Veja, por exemplo, 3:16; 4:1-3: 5:8ss
[8] Cf. Sl 74:20 (ERC)
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A arte de renunciar
“Jesus dizia a todos: Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa, este a salvará. Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se ou destruir a si mesmo?”
(Lucas 9:23-25)
Aprende a arte de renunciar. É na renúncia das vontades e escolhas pessoais que Te aperfeiçôo. Ninguém pode ser Meu discípulo se não aprender tal ensinamento. Renunciei aos céus. Renunciei à glória. Aprendi os caminhos da humilhação, desconforto, e incompreensão. Pude então, compreender melhor o comportamento dos homens. Estou formando em ti um caráter semelhante ao Meu. Para que isso aconteça, é necessário trilhares os meus caminhos. Quero que estejas preparado para a obra que deverás realizar. Este processo, aparentemente indesejável, te dará a têmpera ideal para o combate. Lembra-te, a alma humana é aperfeiçoada na adversidade e no rugir dos acontecimentos. As tensões deste processo te aproximam de minha graça. Por esta razão, tenho enviado provas sobre ti a fim de que aprendas o caminho da vida. Não fujas de tal processo espiritual, pois, se tentares amenizar o calor da fornalha, não alcançarás a tão desejada pureza. Quando te sentires incapaz, exercita tua fé. Ela te foi dada exatamente para isto. Quero que desfrutes das aventuras do universo da fé. O mundo lá fora não pode adentrar ao palco sagrado dos grandes acontecimentos sobrenaturais. É um privilégio de Meus filhos a realização de obras impossíveis para a mente humana. Por esta razão te admoesto: “Aprende a arte de renunciar”. Assim, Me permitirás agir em tua vida.
(Paulo Solonca, em “Raios de Esperança”)
Sede de sangue
Se nos choca idéia do sacrifício do animal que expia os pecados individuais e de um determinado povo, muito mais nos choca a idéia do sacrifício humano, e, no caso específico do cristianismo, do sacrifício do próprio Deus feito homem, em prol da humanidade. Como disse anteriormente, a ênfase não está no sacrifício em si, mas sim na fé de que aquele sangue derramado perdoa e salva o pecador. Deus já havia dito por intermédio do profeta, que “misericórdia quero, e não sacrifícios; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos” (Oséias 6:6). Jesus comentou este versículo duas vezes (Mateus 9:13 e 12:7), sabendo, na sua onisciência, que Ele próprio seria ofertado em sacrifício. E não podemos nos esquecer de que, quando Deus pediu a Abraão que sacrificasse Isaque (Gênesis 22), era também a fé que estava em jogo. Afinal, foi a fé de Abraão de que impediu o sacrifício, pois ele cria que, mesmo se sacrificasse seu filho, Deus o ressuscitaria (Hebreus 11:19).
Dito isto, o fato é que existe um certo mistério que envolve o sacrifício de animais, ou mesmo o sacrifício humano de determinadas culturas e civilizações. Eu ia dizer “civilizações passadas”, mas se nós observarmos bem, até hoje existe sacrifício humano em muitos países ditos civilizados. A pena de morte é o melhor exemplo. Existe pena de morte em países muçulmanos, por exemplo, em que se aplica a “sharia”, a lei religiosa. Existe também nos EUA, em que a pena de morte é uma espécie de “sacrifício civil” das penas criminais, ou seja, o Estado oferece a vida do criminoso como pagamento pelo seu pecado de ter tirado a vida da vítima. E, sejamos sinceros, ¿quantos de nós, por mais que sejamos contra a pena de morte, quando estamos diante de crimes cruéis, como aquele do João Hélio no Rio de Janeiro, não sentimos uma vontade enorme, mesmo que passageira, de ver os criminosos pagarem com a própria vida?
Existe, portanto, toda uma relação atávica do ser humano com o sangue. As religiões animistas comprovam isso. As macumbas nas encruzilhadas também. O desejo de vingança idem. Mas não só o sangue é que deve ser oferecido em sacrifício. É muito comum, não só no Brasil, que, antes de beberem, as pessoas ofereçam um “gole pro santo”. Existe, portanto, uma idéia primitiva, atávica, genética talvez, do contato com uma divindade que requer um determinado sacrifício. De onde vem isso? Não sei… perdeu-se na poeira dos tempos, mas no próprio relato da criação, em Gênesis 3:21, depois do pecado instalado no mundo, Deus faz túnicas de pele para Adão e Eva. Ora, para fazer túnicas de pele para ambos foi necessário matar algum animal. E isto gerou desordem num mundo que, até então, vivia em harmonia.
Ainda que esta relação sangue-sacrifício tenda a continuar envolta no mistério, no misticismo, eu acho que o cristianismo é original exatamente por romper com essa tradição humana ancestral e propor um sacrifício único e radical por todos os pecados da humanidade, a cruficicação do próprio Deus-homem, que nos permite viver, na plenitude da fé, a graça de sermos salvos em Cristo.
Certamente que, para nós, cristãos, tudo isto é simbolismo. Quando me refiro ao misticismo, tenho em mente esta relação genérica que há entre sangue e sacrifício na maioria das religiões primitivas, ou mesmo em religiões que não exigem sacrifício de animais, como o budismo e hinduísmo, mas em que sempre há algum tipo de oferta aos deuses pelo pecado do ser humano, ou pelo seu “aperfeiçoamento”, o que não deixa de ser uma maneira de dizer a mesma coisa.
Teria o sacrifício (e a fé) a necessidade de ser “palpável”? O fato é que a harmonia do Éden foi quebrada pelo pecado do homem e, ato contínuo, um animal (ou mais) é sacrificado pelo próprio Deus para fazer as túnicas de pele de Adão e Eva (Gênesis 3:21). No relato de Caim e Abel, Deus diz que a terra clama pelo sangue derramado (Gênesis 4:9-10). Ao que parece, não havia, até então, nenhum tipo de ritual religioso, pois Gênesis 4 diz o seguinte:
25 Tornou Adão a conhecer sua mulher, e ela deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Sete; porque, disse ela, Deus me deu outro filho em lugar de Abel; porquanto Caim o matou.
26 A Sete também nasceu um filho, a quem pôs o nome de Enos. Foi nesse tempo, que os homens começaram a invocar o nome do Senhor.
Então, foi somente a partir do momento em que Abel foi substituído por Sete que os homens começaram a invocar o nome do Senhor, ou seja, começaram a identificar-se como uma família especialmente ligada a Deus. Sem querer entrar em muitos detalhes sobre isso, me chama a atenção o fato da substituição de Abel por Sete preceder um ritual religioso. Talvez essa seja uma figura do que viria a ser o sacrifício substitutivo de Cristo por nós.
Então, voltando especificamente à pergunta que propus antes, me parece que Deus dá valor ao que se pode chamar de “palpável”, e ao que Paulo chama de “sombras das coisas futuras”. De alguma maneira, estes sacrifícios apontavam para a crucificação de Jesus, mas não era o “palpável” que justificava alguém, mas sim a fé nele depositada, no caso, no sangue que escorria do altar.
Então o sangue sempre foi um intermediário entre Deus e o homem? Eu digo “sempre foi” porque até os dias atuais somos remidos pelo sangue do Cordeiro.
Bem, aí eu acho que entra o livro de Hebreus, o livro todo, mas o capítulo 9 diz o seguinte:
22 E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão.
23 De sorte que era bem necessário que as figuras das coisas que estão no céu assim se purificassem; mas as próprias coisas celestiais com sacrifícios melhores do que estes.
A exceção era feita aos muito pobres, conforme está em Levítico 5:
11 Se, porém, as suas posses não bastarem para duas rolas, ou dois pombinhos, então, como oferta por aquilo em que houver pecado, trará a décima parte duma efa de flor de farinha como oferta pelo pecado; não lhe deitará azeite nem lhe porá em cima incenso, porquanto é oferta pelo pecado;
12 e o trará ao sacerdote, o qual lhe tomará um punhado como o memorial da oferta, e a queimará sobre o altar em cima das ofertas queimadas do Senhor; é oferta pelo pecado.
Assim o sacerdote fará por ele expiação do seu pecado, que houver cometido em alguma destas coisas, e ele será perdoado; e o restante pertencerá ao sacerdote, como a oferta de cereais.
De qualquer maneira, o simbolismo estava presente, bem como a farinha palpável.
Deus não poderia ter escolhido uma simbologia menos macabra?
Esta também é uma excelente pergunta…
Primeiro, temos que entender o que é macabro para nós hoje, pode ser macabro pra mim, pra você, mas talvez não seja pra quem sacrifica um frango na encruzilhada.
Digo isso porque o conceito de “macabro” varia de pessoa para pessoa, e de cultura para cultura, mesmo em “tribos” como a dos góticos, por exemplo, que se reúnem em cemitérios. Para mim, isso é, digamos, exótico, mas não considero macabro, embora tenha quem assim o considere. A “farra do boi” e as touradas em Madrid podem parecer macabras para muitos de nós, mas para muitos catarinenses e espanhóis, não é. A escravidão era algo considerado normal até o começo do século XIX. A colonização de países africanos por potências européias era considerada normal até metade do século XX. Direitos humanos é algo recente na história da humanidade, e só ganhou força mesmo após a Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, torturar presos, até nas prisões americanas, é algo ainda considerado “normal” por muita gente. Vide Guantânamo e Abu Graib.
Enfim, cada época e cada civilização tem o seu grau de “normalidade”. Será que o sacrifício de animais foi a única maneira que Deus encontrou para se relacionar com uma civilização específica, a dos judeus na Palestina de 3.000 anos atrás? Será que era esta a única linguagem que eles entendiam, já que todas as civilizações antigas tinham essa, digamos, queda pelo sangue? Não sei…talvez tenha sido assim.
Entretanto, Deus deixou claro, várias vezes, que não tinha prazer nos sacrifícios. Davi, por exemplo, diz no Salmo 51:
16 Pois tu não te comprazes em sacrifícios; se eu te oferecesse holocaustos, tu não te deleitarias.
17 O sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; ao coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus.
E, ainda:
Isaías 1:11 De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? diz o Senhor. Estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes.
E Deus deixa claro que os sacrifícios só foram instituídos cerimonialmente após o êxodo do Egito:
Jeremias 7:
21 Assim diz o Senhor dos exércitos, o Deus de Israel: Ajuntai os vossos holocaustos aos vossos sacrifícios, e comei a carne.
22Pois não falei a vossos pais no dia em que os tirei da terra do Egito, nem lhes ordenei coisa alguma acerca de holocaustos ou sacrifícios.
Essas são questões que também me intrigam, Switch, mas não acho que temos hoje todos os elementos que nos permitam entender como se dava exatamente este relacionamento sacrificial no passado remoto. Quando essas questões aparecem, eu me conforto com o que Jesus disse:
João 16:12 Ainda tenho muito que vos dizer; mas vós não o podeis suportar agora.
Hecatombe
Esta é uma bela palavra, hecatombe, embora o seu significado seja uma catástrofe, mas espero que eu consiga fazer deste blog algo agradável de se ler.
